SANGUE OU ESTUDOS DE ANTIGONIA
Sinto que as partes em mim que se separam acabam por regressar e encontrar o seu lugar no puzzle do corpo que sou. Encenar é construir o meu corpo é dar-lhe forma de um modo que desconhecia. É este sentido duplo que é um sentido de um mundo duplo que
Sinto que as partes em mim que se separam acabam por regressar e encontrar o seu lugar no puzzle do corpo que sou. Encenar é construir o meu corpo é dar-lhe forma de um modo que desconhecia. É este sentido duplo que é um sentido de um mundo duplo que não é o mundo da realidade mas que também é o mundo da realidade que agora sinto estar a tornar-se possível dar e reconhecer através das experiências recorrentes das minhas enecenações. O voltar às mesmas experiências que agora são já outra coisa para além de uma experiência formal é uma forma construção interior que brilha de dentro para fora. Algo que me sai de dentro do corpo. Algo que se forma em casa que é o corpo dos actores com que trabalho. Sai dos seus gestos através das minhas ideias e das minhas palavras e das minhas propostas. E sei que estão certas porque sinto com o corpo que ao performá-las os actores fazem-me sentir coisas que são forças que colocam o meu corpo de novo no seu lugar. Num lugar que é possível para ele mesmo que seja ainda desconhecido ou inexistente. A encenação como a entendo é essa saída do corpo; é como uma voz que sai por que é fisicamente uma vontade se expressa daquele modo dizendo aquelas coisas ou soltando aqueles gritos. Uma voz é o som do corpo é a música e o rúído do corpo materializado feito matéria do e no mundo real. Do mesmo modo a encenação é a música complexa do corpo que é músculo, ideia, imagem, espaço interior e funcionamento de flúídos e todas as outras coisas do corpo postas cá fora no mundo da realidade. É a realidade posta em cima da realidade: a realidade de um corpo que se insinua por entre a realidade das coisas fora desse corpo. A encenação é a expressão mais complexa e mais próxima do fuuncionamento global de um corpo em jogo com outros corpos dentro de si e fora de si. A encenação e o jogo de um teatro que é uma forma de adaptação ao mundo da realidade usando em simultâneo a linguagem da realidade e a linguagem do corpo; ao que se adicionam matérias que ainda nem fazem parte de nenhuma linguagem de nenhum código conhecido. Nesse esforço a encenação é uma zona de descodificação da realidade conhecida e desconhecida e uma zona de além realidade que ainda nem sequer é vislumbrada ou sequer existe. É essa busca que é dificil de perceber e entender pois muitas vezes se destrói quando se lhe toca ou não nos apercebemos dela mesmo quando a estamos a ver. É mais fácil num momento inicial vê-la com a nossa faculdade de sentir, procurando os efeitos que tal descoberta ou lá como se lhe deve chamar, provoca no nosso corpo. O corpo é mais sensível a essas descobertas. É sensorialmente activo e compreensivo a essas descobertas e alterações o nosso corpo posto perante uma realidade ainda inexistente ou menos que seja indizível. Ao ser cego possui mil olhos o nosso corpo e diz-nos que o que vemos está certo com o mundo e serve-nos para olhar o mundo que ainda estamos a construir. O mundo nesses momentos estende-se até uma zona que é pura fantasia seja ela de deleite ou de horror. É assim que vejo a encenação ou pelo menos foi assim que hoje a senti.
O que é que há de Antígona e de Ismene em cada um de nós? E em diferentes momentos da nossa vida? Como é que nos dividimos interiormente e por um momento podemos ser Antígona – a mulher corajosa, teimosa, implacável que acaba por se matar por não aceitar que as coisas mudem – ou podemos logo de seguida ser Ismene a mulher que aceita obedecer vergando-se à vontade dos poderosos? É possível estabelecer esta coexistência? Ela existe ainda que secretamente dentro de nós como uma figura apenas sonhada por revelar? Somos muitos seres em diálogo uns com os outros? Somos um caminho para uma imagem com cada vez maior definição? Ou pelo contrário somos um caminho para uma imagem que se desfaz, ruína de si mesma? Salvação e destruição, doença e cura, vírus e portador numa união incompreensível, num diálogo de vida e morte que se renova? Imagens sucessivamente fragmentando-se, multiplicando-se, desfazendo-se sucessivamente sobre a consciência que escapa, diálogos de mentes doentes, doenças que são chaves para a possibilidade de distância necessária para continuar a procurar o fim das coisas.
Foi ao intuir o desejo de Antígona caminhar sobre o fim das coisas, o seu desejo de ultrapassar esse fim, de chegar além do fim das coisas, que a imagem do sangue se foi insinuando repetida e insistentemente tornando mais presente. O sangue é um princípio enigma, um fim obscuro sobre o qual estabelecemos a luz da dramaturgia poética e plástica que utilizámos. O que restou é para sentir e criar em conjunto.