SINOSPE

 

Ruínas 

 

  1. teimosia 
  2. ruínas 
  3. palavras com rabinhos 
  4. a peça 
  5. obrigação 
  6. mais nada 

 

 

Estamos a andar para trás a ver se conseguimos fazer com que nada se modifique. Nunca percebi muito bem porquê mas sempre fui do contra. Dá-me coisas não sei. Um prazer que se confunde com caminhar de gatas debaixo das mesas e beijar as pernas das mulheres. Se o mundo é feito de mudança eu quero fazer um espectáculo sobre as coisas que nunca mudam. Há coisas que nunca mudam: as pernas que se abrem e fecham quando caminhamos, eh eh eh, o fim, e as ruínas. Por isso estamos a fazer um espectáculo que é sobre as ruínas.  

 

Em Ruínas sobrevoamos uma zona que vai desde a delimitação de fronteiras comuns de territórios distintos até à criação de uma novela da vida irreal que pretende inocular-se por entre os poros, veneno por debaixo da pele, trespassando os músculos e abrindo as veias até se alojar como lascas de metal, parafusos nos ossos desarticulados. Nada de muito significativo portanto, apenas mais uma mão cheia de lugares comuns. Não desejamos impressionar, nem expressar, nem ocultar, nem descobrir. Só desejamos fazer. Estão a perceber? Deixem lá que eu também não. Apostamos numa acção que metaforiza a compressão de tempos diversos de uma vida. Um momento qualquer que é como se fosse para sempre. O copo de água que estou a beber neste momento contém um gesto que foi já feito e que voltará a ser feito outra vez com o mesmo efeito e com as mesmas intenções. Então o que é que muda? O copo? A água? O corpo? Nós?  

 

O texto teve como ponto de partida a ideia de um grupo de pessoas que se encontra perante uma porta e que não a conseguem transpor. A vida deles fica assim dependente de a porta se abrir por uma qualquer razão exterior à sua vontade ou de se manter assim fechada para sempre. A impossibilidade de consumar este gesto, o simples abrir de uma porta, condensa neles o tempo todo das suas vidas. O que se obtém é a descrição dos dramas íntimos de quatro personagens estranhamente ligados pela morte de uma criança. Os modos como cada um vive esse momento define-os e define as suas vidas em comum. A vida não se altera nós é que a olhamos de uma posição diferente. No texto está inscrito o que se diz e o que se pensa em simultâneo, sendo por vezes difícil, ou mesmo impossível, de separar as duas falas. Pelo meio estabelece-se uma consciência que se encolhe e que se alarga conforme os modos de vida que cada um decidiu para si. As palavras escondem-se dentro dos corpos como vermes com rabinhos a dar a dar. 

 

Porém entre o texto e a peça existe um hiato. Um salto para um território em que os companheiros de jornada se multiplicam à velocidade dos dias que passam e das cumplicidades que o acaso estabelece. O texto chama-se a Caminho do Fim e a peça dá pelo nome de Ruínas. Uma relação curiosa que se estabelece entre caminhos e ruínas, entre corpos com vidas que se desfazem no caminho e as roupas que se usam para dar cor aos corpos. Saltos altos para tocar o céu e fazer buracos no chão para falar com os mortos e nos confessarmos dos pecados que ainda queremos fazer. Uma das personagens da peça diz o seguinte acerca da morte: “…quantas pessoas terei que matar até ser respeitada, até ser ouvida?! Eu já vos disse para fecharem a merda da boca. É por lá que entram os vírus… queria dizer da porta… da porta.” Na peça os personagens falam com eles com os outros e com os mortos deles e dos outros. Talvez seja por isso que a peça seja ao mesmo tempo didáctica e religiosa. Contínua e comprimida. Nem que seja por força das pedras que caiem e que lhes esmagam as caveiras, perdão queria dizer o crânio.  

 

Escrevo porque me obrigam a fazê-lo, respiro porque o meu corpo o faz sem me perguntar nada, caminho porque me empurram, amo porque o meu corpo se estende, deliro porque não me aguento em pé, sofro porque sou um anão ao ombro de um gigante, entrego-me porque me falham as pernas para correr, escondo-me mas descobrem-me porque cheiro muito mal, tenho sede porque verto águas pelas juntas dilatadas, encolho-me para partir a espinha, não sei nada acerca das diferenças culturais, faço um testamento porque tenho inimigos, saboreio o sangue porque me partiram os dentes, caio porque me empurram, reproduzo-me porque sou vaidoso e porque há momentos estranhos em que nos empurram e que somos obrigados a pensar, obrigados a andar, obrigados a levantar voo. 

A caminho do fim, noite escura, ou ruínas? 

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