OLHO - Exposição
Uma pancada nos olhos faz ver: exposição do Arquivo do Inconsciente – fundo documental do colectivo OLHO Criado em 1991 e em actividade até 2002, o OLHO foi um colectivo de experimentação artística sediado em Almada cujas colaborações resultaram em espectáculos performativos e numa actividade programática que extravasaram os limites conceptuais
Uma pancada nos olhos faz ver: exposição do Arquivo do Inconsciente – fundo documental do colectivo OLHO
Criado em 1991 e em actividade até 2002, o OLHO foi um colectivo de experimentação artística sediado em Almada cujas colaborações resultaram em espectáculos performativos e numa actividade programática que extravasaram os limites conceptuais das diversas áreas disciplinares envolvidas (teatro, performance, dança, artes visuais, arquitectura, música, multimédia e vídeo). Foi um acontecimento sintonizado com as práticas internacionais da performance e dos novos media que marcou profundamente toda uma comunidade de artistas e espectadores ainda hoje activos e relevantes no tecido artístico português.
O Arquivo do Inconsciente resulta do projecto arquivístico de sistematização e organização do fundo documental do trabalho desenvolvido pelo colectivo OLHO e reúne documentos tratados e indexados com distintas origens: o arquivo doado por João Garcia Miguel; um conjunto de documentação associada (digitalizada e referenciada) proveniente da Fundação Calouste Gulbenkian, do Arquivo Histórico Municipal de Almada, do Arquivo pessoal de Alexandre Crespo e documentação audiovisual do arquivo de Edgar Pêra.
Uma pancada nos olhos faz ver visibiliza o fundo documental na sua especificidade de suportes e conteúdos, valorizando a diversidade e riqueza audiovisual. Optando por uma estratégia que responde ao desafio de fidelidade à verdade do arquivo, é proposto um itinerário que revela a amplitude da documentação à luz das criações do OLHO. À experiência do percurso corresponde uma convergência : o trabalho de construção do arquivo e o subsequente discurso curatorial vão ao encontro de um novo e necessário começo – a construção de uma narrativa e da memória comum.
Arquivo do Inconsciente: 29 caixas de arquivo, contendo 2 seções, 20 séries e 91 unidades de instalação tratadas.
Por necessidade extraordinária de preservação, procedeu-se à digitalização de documentos em suporte VHS, em mini DV, Betacam e K7, totalizando 53 unidades de instalação de documentos audiovisuais.
Foram criados 2 ficheiros Excel com 1 Quadro de Classificação e 1 Quadro de Descrição, seguindo as “Orientações para a Descrição Arquivística, 3ª Versão”, com 73 entradas.
Veronica Metello
Curadora
A TUA PEÇA É UMA MERDA
Anos 90. As contradições eram tudo. Éramos bastantes que entre estilhaços, línguas estranhas, cadeiras partidas e pés de dança, procuravam um lugar que deitasse abaixo os muros, as quartas paredes, os quintos dos impérios e tudo o mais! Éramos alguns à procura! Eram mais à espera de que se encontrasse um país que andava à deriva entre guerras e naufrágios. Fazer teatro, dançar, cantar, qualquer gesto era importante, qualquer evento era único e filho de investimentos de uma vida, duas cruzadas, muitas dívidas. Mergulhar! A vida toda posta em cena. Aprender era ver os outros a fazer. Era fazer! Fazer sem saber o que se estava a tentar. A vida era: um laboratório para experimentar tudo; a vida eram armas e flores e notas de entrega, facturas e campos por semear sem limites; a vida tinha uma liberdade para sentir e até demais. Ardíamos! Atacávamos o amor, comíamos a paixão e canibalizávamos o bem querer. Tínhamos desejos e vontades. Uma tal vontade que nos habitava a casa; o corpo; e que saltava pelas janelas. Tínhamos vontade de ver. De estar. Tanta vontade que íamos ver tudo o que mexia e o que estava desabitado. Cada lugar era espaço para a imaginação, uma esperança cada armazém. Sonhar um lugar para as artes e para os artistas ocuparem. Usar. Sabíamos dos outros e do que cada um fazia. No final todos se encontravam uns com os outros e a opinião era fundamental: então o que é que achaste?
— Eh! Pá, olha lá pá, pois não sei! Mas a tua peça é uma merda!
— Achaste?
— Sim, achei. A tua peça é mesmo uma grande merda!
— Eh! Pá, pois tivemos pouco tempo. Pensámos só estrear daqui a duas semanas, mas já estávamos há dois meses a adiar! Teve mesmo de ser!
— Pois, pá, mas é uma merda! Pá! A tua peça é mesmo uma grande merda!
— Eh! Pá, pois já percebi! Mas tínhamos pouco dinheiro!
— E então? Nem dinheiro, nem ideias, nem atores, nem actrizes, nem nada! Temos pena!
— Eh pá não me fodas. Já percebi. Mas, já agora e mesmo que não te tenha dito antes, ficas já a saber: olha que a tua peça também foi uma grande merda!
— É verdade! E tinha tudo para ser uma grande peça!
Era com amor, com esse amor desesperado que víamos as coisas e que achávamos tudo o melhor do mundo, ou o pior do universo e arredores! Mas as palavras escasseiam. As doutrinas que conhecíamos eram poucas para dizer o que sentíamos. Ainda estávamos a gatinhar nos alfabetos do amor e do ódio. Os egos eram maiores que o resto do corpo. Falar. Gritar. Fazer teatro. Tudo dito e feito com o volume máximo e gritado bem alto para se poder sentir. Dizer: a tua peça era uma merda! era um elogio misturado de muitos sentimentos. Era o melhor que se sabia dizer e que se podia fazer. Éramos analógicos, básicos e pouco digitais. As tintas eram carregadas e não havia apenas zeros e uns. Éramos amigos/inimigos. Para ser uma coisa temos de ser em simultâneo o seu oposto. Para ser inimigos, temos que ser amigos. E éramos feitos de carne e osso. Ardiam os ossos e deitavam luz cá para fora. Vivíamos incandescentes. A luz era feita de fogo e ardia na pele, era feita de um pouco mais do que pontos e pixels. A carne e o osso achavam-se presentes e o risco de olhar e ver, de pensar e sentir e poder dizer como quem se libertava do amor: a tua peça é uma merda! E é uma coisa deslumbrante! É uma merda maravilhosa! Tanta contradição! Por fim!
João Garcia Miguel
Diretor Artístico da Companhia João Garcia Miguel promotora da exposição