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No Teatro: O Auto da Barca do Inferno (Gil Vicente)

Uma carta ao passado que escreve o futuro...   Querido Gil Vicente, Escrevo-te daqui, deste Portugal quinhentos anos depois de teres apresentado o teu “Auto da Barca da Inferno”. Temos tentado, muitos de nós — teus herdeiros no teatro e nas artes — de manter vivo o que imaginaste na altura. É maravilhoso

Uma carta ao passado que escreve o futuro...
 

Querido Gil Vicente,

Escrevo-te daqui, deste Portugal quinhentos anos depois de teres apresentado o teu “Auto da Barca da Inferno”. Temos tentado, muitos de nós — teus herdeiros no teatro e nas artes — de manter vivo o que imaginaste na altura.

É maravilhoso essa tua ideia de criares um teatro que nos faz ver o outro lado da vida: a morte. Vemos através das tuas palavras e ideias a morte e esse rio onde nos esperam para levar para sabe-se lá onde. Tu nos dizes que é para o céu e o inferno.

Mas atualmente olhamos para esses lugares de modo diferente do que tu nos legaste.

Gostava de te ter conhecido. E de certo modo acho que nos falamos. A tua peça é um maravilhoso artificio teatral que nos permite hoje falar de coisas que receamos e essa coragem é uma coisa que temos de te agradecer. Repara bem: talvez não
tenha sido essa a tua intenção, mas criaste uma máquina de ver. A nós como teus leitores e espectadores resta sentarmo-nos e ver o outro lado. Esse cais onde dois barcos e dois seres mais os seus auxiliares aguardam os que entre nós se foram.

Nós os que estamos vivos ali vemos e ouvimos o que lhes acontece depois de passar essa linha. E pede-nos imaginação. Capacidade escutar o que dizem os que já se foram levados pela morte.
E percebemos que durante a vida usámos a linguagem, não como crianças que não sabendo falar aprenderam as palavras e as suas raízes mais fundas e antigas.
Usámos durante a vida as palavras de forma a gozar os prazeres e tirar vantagens e lucros dos outros.

Ao chegar ali, àquela linha de partida para outro lugar, as palavras ganham de novo outro sentido. O sentido das crianças que aprendem que o amor é igual ao sentido da sua humanidade. O nosso tempo de vida tem por isso de ser vivido e aproveitado
a partir desse ponto que é o coração. O que propomos é experimentar o teatro como um modo de nos fazer crescer e conhecer.

Através do mundo imaginado por Gil Vicente — um país, um homem e uma mulher que são em si um sistema criadito, um apelo estético e ético: perguntamos ao fazer teatro — como é que se pode fazer um teatro para sentir? E com sentido do que em nós é humano?

Até já, Gil Vicente e muito obrigado por teres aceitado o convite e vires ver a nossa peça e conversares connosco acerca do estado do mundo: na tua época e na nossa.

João Garcia Miguel

mgldh

Writer and content creator passionate about sharing insights and stories.

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