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MÃE CORAGEM

"Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons;  Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;  Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;  Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis."  Bertolt Brecht    Memória

"Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons; 

Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons; 

Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda; 

Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis." 

Bertolt Brecht 

 

Memória descritiva  

 

A guerra de carácter religioso dura há muitos anos. A juventude é sacrificada nas frentes de batalhas, as cidades são saqueadas por homens famintos e desesperados, enquanto os soldados se entregam a diferentes bandeiras sem ter a nítida compreensão dos motivos que os levam a fazer a guerra, a odiar e a matar. 

O início da peça é marcado pelos argumentos que diferenciam a guerra e a paz, inscritos nos diálogos de um recrutador e do sargento: “A paz é uma porcaria, a guerra é que estabelece a ordem. Na paz a humanidade desenvolve-se como ervas daninhas. É um desperdício de gente e de gado, assim sem mais nem menos” e “Como tudo que é bom, a guerra também é difícil, no começo. Mas, depois que começa a florescer, é uma planta que resiste a tudo; as pessoas começam a tremer, só de pensar na paz, como os jogadores, que não querem parar, para não terem de fazer as contas do que perderam.” 

Mãe Coragem é uma mulher que vende aos soldados, que acompanha em marcha na sua carroça, comestíveis, bebidas, roupas, informações e promessas de favores e mesmo de outras coisas nunca realmente confirmadas. Vive da guerra e dos seus negócios de oportunidade, comprando o que os camposneses e os deserdados das cidades necessitam de vender para sobreviver mais um dia, alimentando assim os seus filhos e quem mais a vai parasitando.  

O sargento mostra a ambiguidade da mulher: “Para você, então, a guerra há de roer os ossos e deixar a carne? Você engorda as suas crias com a guerra, e não quer dar nada em troca? Ele precisa saber de onde vem a comida...” Ainda assim, ela está segura: “Mas os soldados não precisam ser meus filhos.” Eilif, o filho mais velho é assediado para se alistar logo no começo e acaba por se tornar primeiro um herói e depois pelos mesmos motivos um assassino de guerra o que o conduz ao pelotão de fuzilamento. Não consegue despedir-se da mãe e morre sem compreender a diferença entre a paz e a guerra. Mãe Coragem nunca chega a saber da morte deste seu filho. 

Queijo Suíço, o filho do meio, “o mais tapado mas o mais honesto”, é fuzilado por ter escondido o cofre do regimento que estava a seu cargo num momento em que a guerra deu a volta e se recusar dizer para onde o atirou. A mãe, mais tarde, diante do corpo é obrigada a fingir que não o reconhece para sobreviver. 

O capelão, o cozinheiro e a prostituta, seres desfigurados pela guerra que convivem com Mãe Coragem ao redor da carroça em alguns períodos da guerra vão acompanhando a viagem por dentro da miséria e penúria que a situação descreve. Resta a Mãe Coragem a filha muda Kattrin que sonha com o fim da guerra para se poder casar. Ao deixá-la sozinha na casa de uns camponeses à porta de uma cidade onde se desloca para fazer negócios vai também acabar por perdê-la. A filha ao aperceber-se de que tropas inimigas se preparama para invadir a cidade adormecida, sobe para cima do telhado da casa tocando tambor acabando por provocar a sua morte. Ao matá-la os vigias despertam e a cidade pode defender-se, salvando assim a vida da sua mãe. Mãe Coragem termina puxando a carroça sozinha recomeçando o seu trajecto em direcção a lugar nenhum.  

 

Motivações e linhas de orientação 

 

O desejo de trabalhar um texto de Brecht é antigo. A escolha recaiu neste texto pela qualidade poética da situação, pelo abismo em que se movimentam os personagens e pelas possibilidades de releitura que traz a ambiguidade dos temas da peça: a guerra, a consciência da desvalorização da vida humana, o teatro enquanto instrumento das manifestações de poder individuais em situações limite, a necessidade de recomeçar mais uma vez. 

A guerra como pano de fundo provoca um uníssono de desejos: de sobrevivência, de valorização do instante, de que as coisas mudem. Seja a guerra entre os homens, seja a guerra interior de cada ser humano, seja a conjugação de várias guerras, o efeito de contraste das situações ganha contornos de um regresso ao estado infantil, ao estado bruto e animal que guia os gestos até aos limites do silêncio e da selvajaria. Viver num estado de guerra é provavelmente equivalente a viver num outro lado do mundo obscuro e inclinado. Viver num estado de guerra equivale a habitar num lado oculto que permite viajar por dentro do interior das coisas. As batidas do coração passam a ser como omnipresentes batidas de tambores, os sentimentos são expressos em balas e tiros de canhão, os beijos e as carícias são gritos e dentadas que mal se ouvem no estertor dos combates, o assassínio torna-se um acto heróico e desejável. Aquilo que somos e aquilo que sonhamos ser perde contornos e regressa ao sangue, à memória do sangue na qual estão inscritas todas as guerras.  

 

Há algo nos confrontos desta guerra, na ingénua construção do colapso, da ruína, de um quase nada, que os torna próximos e humanos: a confusão do mundo que produz a simplicidade, a falta de rumo que se resume a caminhar num círculo sem fim, o sem sentido que promove o agarrar demente do nada, o esvaziado onde tudo é estéril torna-se sustentáculo de ilusões, o esbater da diferença entre estar vivo e estar morto é o impulso ao qual se prende o recomeçar. 

 

Há latente, uma ideia de música, de poesia, de canções e palavras sem nexo que funcionam como um caudal de batidas, pancadas no corpo que necessita de ser despertado. A ideia de um corpo como um tambor e do uníssono das batidas é o ponto de fuga, o centro de onde partem as perspectivas de amalgama das imagens para a encenação desta história. São a imagem substância, a imagem sonora, a imagem viagem que impõem e provocam a construção da peça. O tambor é o uníssono, o coração, a carruagem, a roda que chia, a fonte do amor, do ódio, o sinal da batalha, a celebração da morte, o instrumento da música e do teatro da guerra. Tambores e corpos: símbolo imperfeito do ruído surdo que amedontra, que range e ruge por dentro da carne e do osso; corpos esvaziados de onde parte de novo o som, onde ressoa e se rasga a pele do mundo outra vez. Há semelhanças entre um tambor e o mundo, entre um tambor e um corpo; há diferenças entre um tambor e um canhão, entre um corpo e um buraco para onde se atiram os mortos. Há imagens que nos constroem o corpo há uma invenção que somos nós e a distância do mundo onde nos movemos como paisagem. 

mgldh

Writer and content creator passionate about sharing insights and stories.

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