LOS NEGROS E OS DEUSES DE NORTE
Troquei o corpo de velho por um violino. Troquei o violino por uma alma de criança. A criança tinha oito anos e carregava em si toda a sabedoria do mundo. Toda a sapiência não cabia no corpo frágil da alma da criança. O corpo velho apodrecia, adormecido. Não consta que
Troquei o corpo de velho por um violino. Troquei o violino por uma alma de criança. A criança tinha oito anos e carregava em si toda a sabedoria do mundo. Toda a sapiência não cabia no corpo frágil da alma da criança. O corpo velho apodrecia, adormecido. Não consta que tivesse seguro de saúde, ou passaporte.
Podemos começar de novo? Noutro lugar? Um outro lugar cheio de espaço. Um lugar novo. Atulhado na ausência dos corpos e das almas. Povoado por animais que descem das árvores e são caçados por predadores. Uma espécie de nova ordem natural. Um lugar vazio, cheio de violinos. Podemos começar de novo? Recomeçar a partir do sonho, como crianças de oito anos, sem corpo. Começar perto de lugares desertos, intocados pela mão do homem. Lugares de vida, onde a natureza define o seu destino. Lugares onde deixamos as crianças de oito anos subirem às árvores para contemplar o mundo e ouvir melhor os violinos. Lugares de imaginação e confronto.
Sonhei que a chave do mundo morava no coração da alma da criança de oito anos. No som dos violinos, nos animais em metamorfose e num corpo que se deixa adormecer para conhecer melhor o mundo. O sonho era um lugar negro, dentro desse lugar apagado que se chama noite. O sonho e a noite eram marginais. Escorriam por entre os dedos e deixavam-se beber por lábios insaciáveis. A chave era a porta do sonho do mundo. Todos aguardavam o profeta, em cima de árvores, despidos de corpos. Leves, como almas puras de crianças rebeldes. Nesse espaço, nesse sonho havia algo a dizer. Não precisamos de dentistas porque os nossos próprios dentes não existem.
Sonhei que o corpo era uma fronteira. Do lado de dentro, a alma lançava-se contra a pele impenetrável das coisas. Uma Deusa do norte era o arauto de um novo amanhecer. Um sonho onde o sentido sai da pele, faz-se melodia e reverbera de novo para o corpo, que mais não é do que a alma de uma criança de oito anos. No sonho, de mãos entrelaçadas e lábios molhados, dançávamos o tango primitivo e sabíamo-nos anjos devastadores, de martelo em riste.