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HERÓIS DO IMPOSSÍVEL

Um casal que atravessa o tempo de uma revolução e a sociologia.  Em Heróis do Impossível, homem e mulher são símbolos do sentimento trágico que nos varreu e empurrou depois do 25 de abril. Um olhar sobre a revolução mais íntima que foi também a de abril: As profundas no

Um casal que atravessa o tempo de uma revolução e a sociologia. 
Em Heróis do Impossível, homem e mulher são símbolos do sentimento trágico que nos varreu e empurrou depois do 25 de abril. Um olhar sobre a revolução mais íntima que foi também a de abril: As profundas no casamento, subjacentes às novas condições e papéis de homem e de mulher. A força dos opostos na sua máxima tensão. A exaltação da procura pelo que nos falta experimentar. 
Cinquenta anos depois, vivem-se tempos de vertigens num mundo cada vez mais dilacerado e complexo. Estaremos descrentes? Heróis do Impossível nos convida a revisitar a ideia de utopia que todas as revoluções trazem e nos desafiam à superação individual por um coletivo maior e um mundo melhor. 
Um por um, todos por todos. Acreditar que o sonho é possível. 
Um texto de João Garcia Miguel inspirado no diário 'Não Percas a Rosa', de Natália Correia e influenciado por muitas das suas viagens à literatura, poesia e filmes - de Tolstoi a Bergman e a Miguel 
Esteves Cardoso, de Henry Miller a textos da revolução de abril.


MENSAGEM DO ENCENADOR 
Natália Correia escreveu um diário que, por sorte nosso, se iniciou no dia 25 de Abril de 1974 e terminou no dia 20 de Dezembro de 1975. Em 1978, quando descobriu publicar o seu diário, escreveu um texto onde de algum modo resumia a sua visão do que tinha sido os acontecimentos e as forças que lhes percorriam subterrâneamente. Disse-nos o seguinte: 
“Estou num sítio sagrado [no Vale das Lages]. Os ritmos canibais que me devoraram os nervos há três anos surgem-me aqui como delírios de uma febre em que mergulhei para renascer numa outra vida. Sim, a festa revolucionária foi a revelação súbita do trágico. Nesses transes de dor e lama adquirem o grande magistério de me conhecer espiritualmente nos valores infinitos que o trágico faz surgir. As aderências ideológicas, impurezas morais do meu intelecto, caíram como frutos podres. Não é trágico ouvir manar a voz de Deus. Poderosa alegria estética!”

Ao ler estes seus textos que atravessam como uma flor de luminusíssima intensidade branca — uma rosa simbólica — aqueles tempos, damos conta de que somos também nós que ali estamos. 
Ou que estivemos. Da mesma forma, a experiência é feita o que implica um esquecimento e um despertar. Abateu-se sobre nós esse sentido do trágico — esse conceito onde se cruzam modos de sentir e de pensar que, por instantes que sejam, são capazes - somos capazes -, de assumir e afirmar a totalidade da existência. O mundo é nosso - ouvimos cantar - e nós somos do mundo: ouvimos os corpos a falar. A vida e todas as suas implicações, a vida na integridade plural dos seus aspectos, incluindo o que nela existe de sombrio e luminoso, de alegre e doloroso, de desfalecimento e exaltação é aquilo que nos falta e o que ganhamos dia a dia. 
Trágico é, por isso mesmo, um pensamento capaz de acolher e bendizer tanto a criação como a destruição, a vida como a morte, a alternância eterna das oposições, do masculino ao feminino, da sombra à luz, do prisioneiro à liberdade.

Ao ler estes seus textos que atravessam como uma flor de luminusíssima intensidade branca — uma rosa simbólica — aqueles tempos, damos conta de que somos também nós que ali estamos. 
Ou que estivemos. Da mesma forma, a experiência é feita o que implica um esquecimento e um despertar. Abateu-se sobre nós esse sentido do trágico — esse conceito onde se cruzam modos de sentir e de pensar que, por instantes que sejam, são capazes - somos capazes -, de assumir e afirmar a totalidade da existência. O mundo é nosso - ouvimos cantar - e nós somos do mundo: ouvimos os corpos a falar. A vida e todas as suas implicações, a vida na integridade plural dos seus aspectos, incluindo o que nela existe de sombrio e luminoso, de alegre e doloroso, de desfalecimento e exaltação é aquilo que nos falta e o que ganhamos dia a dia. 
Trágico é, por isso mesmo, um pensamento capaz de acolher e bendizer tanto a criação como a destruição, a vida como a morte, a alternância eterna das oposições, do masculino ao feminino, da sombra à luz, do prisioneiro à liberdade.

A força dos opostos na sua máxima tensão — foi isso que se caiu naqueles anos de revolução após o 25 de Abril de 1974. Um máximo de opostos entre as idades antigas do mundo e uma outra nova idade que se adivinha chegará. 
É com base neste sentimento de trágico que nos anima enquanto país, que aqui regressamos. A via de acesso a este enredo coletivo será plasmada na vida de um casal. Homem e mulher como símbolos desse sentimento trágico que nos varreu e 
empurrou naqueles anos.

Tomemos as histórias que constam do diário de Natália Correia e encontramos um conjunto de entrevistas ao General 
Amadeu Garcia dos Santos que foi um dos capitães de Abril e que, agora, se permitiu acessar ao nosso convite e falar sobre as 
suas histórias. 
Há um detalhe pessoal nesta escolha. Sou eu seu filho e, por isso, para além dos agradecimentos que todos os anos o endereço pelo fato de nos ter conquistado e oferecido a liberdade, hoje regresso ao seu mais íntimo. 
Através de um exercício estético, cruzei esses depoimentos com os de Natália Correia. Aqui já temos um casal impossível. Mas este casal existe nas menções ao seu pai e mãe, aos meus pais, e muitos outros exemplos que servirão de base para a 
construção de um texto a que demonstramos o nome de Heróis do Impossível. Expressão que retiraremos do texto diário de Natália Correia.

Uma peça de teatro com um casal que atravessa o tempo de uma revolução e a soçobra mantendo-se, através dos fios das suas vidas, a exaltação dessa procura, dessa busca insaciável desse Sol Oculto que nos falta experimentar. Vivemos tempos de vertigens. Temos experimentado de tudo e todas as ideologias nos assombram esgotadas. Estamos a repetir-nos insanamente. 
Há uma exclusão (quase total) de todas as fórmulas e ilusões do passado que nos mantêm de pé e descrentes. Agora o que é que nos falta experimentar? 
Segundo Natália Correia e, certo modo, estamos coniventes com ela o que nos falta experimentar, ou recuperar é o Espírito. 
O Espírito de uma humanidade que se proclamou algures no passado. “O Espírito, uma pomba que só pousa na terra purificada pelo dilúvio. 
Destapar esse Sol Oculto, para que sua irradiação seja uma substância da nova ordem social, eis a missão do trágico português. Isto é, do trágico ocidental [...]”. Ainda, e para terminar, o símbolo da Rosa que tem neste texto importância capital. E que nos anima a intuição. Transcrevo as últimas linhas do diário: “No trágico conhece-se a alegria da adivinhação. Desvenda-se 
o esfíngico desse olhar português e fatal com que a Europa fixa obstinadamente o coração da Rosa. Complete-se a sua Mensagem, Fernando Pessoa. Portugal, Portugal, não perca a Rosa.” 
E, curiosamente, relermos as linhas onde Pessoa, na Mensagem se refere à Rosa e vem associada ao Encoberto, esse sempre eterno símbolo da nossa espera e símbolo de um sentir português. 
A neblina como elemento formador e fermentador de criação. A neblina é parte das nossas almas e dessa divisão em que sobrevivemos e sobrevivemos. É a relação entre a rosa, o coração e uma nova humanidade que nos parece ser o fundo de todas as revoluções. 
João Garcia Miguel

O autor escreve de acordo 
com a antiga ortografia

mgldh

Writer and content creator passionate about sharing insights and stories.

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