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FAZER BOM USO DA MORTE

Normalmente deixamos que a morte venha ter connosco. Por preguiça, por medo, por falta de tempo ou de jeito, por falta de paciência, porque temos mesmo muito mais que fazer, a morte que se foda, quando chegar que suba pelas paredes e que não nos chateie e de preferência que

Normalmente deixamos que a morte venha ter connosco.

Por preguiça, por medo, por falta de tempo ou de jeito, por falta de paciência, porque temos mesmo muito mais que fazer, a morte que se foda, quando chegar que suba pelas paredes e que não nos chateie e de preferência que venha a horas decentes e o mais tarde possível. 

A morte é uma merda que ninguém quer e por isso ela mesma a morte faz se convidada e aparece assim-assim como uma inevitabilidade. Mas pode alguém fazer bom uso disso e usar a morte como uma forma de fazer dinheiro e conseguir transformar aquilo que ninguém quer nem para mandar para o lixo, e fazer bom uso dela?

Podemos fazer bom uso da nossa morte para o serviço de quem?

Podemos nem sequer pensar nisso e ter sorte e a morte cair morta aos nossos pés. Podemos dormir com a morte na garganta e acordar com ela enroscada nos pés? Podemos não morrer fazendo uma máquina que mantenha o corpo sempre em transformação e não deixar que a morte o pára de se modificar? a morte é uma mentira? Morte à morte e a quem a apoiar! Podemos matar-nos antes de morrermos?

Podemos pensar que a morte não dura sempre, a morte não dura para sempre como a vida e o tempo, ou podemos pensar que não temos vida para morrer, que não temos ainda uma vida suficientemente vivida para podermos dar-nos ao luxo de morrer? E podemos morrer de cócoras ou morrer de pé ou morrer em cima de uma nuvem, ou morrer esmagados por uma pedra que cai do céu, podemos morrer debaixo de um lençol, podemos morrer em cima de um alfinete, podemos morrer com escamas nos pés, podemos mudar de cor ao morrer, podemos morrer e fazer um bom uso da morte.

Vamos fazer uma peça de teatro ou lá o que isso é a partir de um texto de Pasolini que nos deu umas ideias sobre a morte e os gajos que querem ou que são mesmo sem querer qualquer coisas mais que apenas uns animais e que podem ou que conseguem por vezes sem querer ou por querer olhar a morte de lado e depois com mais um esforço pequenino e minúsculo olhar a morte de obliquo e depois olhar a morte por detrás pelo rabo e depois olhar para si mesmo e perceber que aquele sinal que ali começa a crescer não é o pecado venial mas a morte a alastrar e que até nisso a morte deles é única e diferente das mortes que vêm nos livros e das mortes que todos os outros morreram até hoje

A pensar sobre a morte e as mil e uma maneiras de fazer um bom e um mau uso da morte....

Ajudem-me por favor a morrer com jeitinho....

Ajudem-me a matar com carinho e amor pelo próximo que vai morrer

Ajudem-me por favor que morro e nem dou conta disso

Ajudem-me mas é o caralho que vos foda a todos

Eu não quero a vossa morte para nada que cheira mal que se farta e eu tenho o nariz muito sensível e preciso de cheirar a minha morte quando ela vier

Tirem me daqui a vossa morte por favor que eu peço vos com jeito que vão morrer longe para lá dos subúrbios tão longe que nunca mais cá cheguem pois o vosso longe é tão perto do fim que nem transportes lá existem nem o governo quer saber que terra é essa onde se faz bom uso da morte e as farmacêuticas fizeram um cordão sanitário de segurança em volta da vossa terra de mortas e de mortos. Morram bem por favor.

Colaboração Artística na Encenação João Garcia Miguel e Miguel Borges
Interpretação Ana Rosa Abreu, Daniel Coimbra
Música, Grafismo e Fotografia Miguel Nicolau
Fotografia de Espetáculo Libório
Direção Técnica Ricardo Pimentel
Produção Executiva Marta Vieira
Web Design Mantos
Co-produção João Garcia Miguel e Casa D’Os Dias da Água
Libório
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