DO TIRAR PELO NATURAL
No livro de Francisco de Holanda Do Tirar Pelo Natural que nos serve de título e inspiração para o conjunto de ideias que aqui alinhamos e da sua estrutura em diálogo que discorre sobre as dificuldades e virtualidades do retrato avançámos para uma reflexão acerca desta nova tendên cia de
No livro de Francisco de Holanda Do Tirar Pelo Natural que nos serve de título e inspiração para o conjunto de ideias que aqui alinhamos e da sua estrutura em diálogo que discorre sobre as dificuldades e virtualidades do retrato avançámos para uma reflexão acerca desta nova tendên cia de nos registarmos a cada instante. A fotografia digital e as redes sociais desencadearam o fenómeno universal das selfies, do registo e da publicação todos os momentos do quotidiano, de todas as ações do indivíduo e seus estados de alma, até ao limite do narcisismo. A consciência tornou-se pública, em rede e a cada instante partilhada. Estamos em permanente retrato do que somos e sentimos. Estamos a tirar-nos pelo natural que somos e que estamos a viver cada instante. E as consequências são as que estamos a viver porque a liberdade parece ter-se ido, esfumou-se como uma neblina que impede ver. Este novo tempo, este novo culto do retrato instantâneo e permanente e sobretudo, o culto da imagem egocêntrica do autorretrato, onde o indivíduo é sujeito e objeto de expressão artística, a partir da qual se pode traçar o perfil sociológico de cada época e lugar, consoante as transformações registadas no tipo de figura a representar e a forma de o fazer. Somos o natural a partir do qual nos tiramos e colocamos dentro de novo. Até o natural ficar confuso e deixar-se de perceber onde se situa.
Plínio, o Velho, na História Natural (Naturalis Historia, 77-79), atribuía a origem do desenho ao traçado do contorno da sombra: a filha de Butades, um oleiro de Sicião, traçou numa parede o contorno da sombra aí projetada pelo seu amado que estava de partida para uma longa jornada (Plin. Nat. 35.43). O retrato é, assim, um instrumento para fixar a memória. A própria ou a do outro. Em 1548-1549, Francisco de Holanda, no tratado Da pintura antiga, recupera o relato de Plínio, assegurando que “todos se acordaõ q[eu] [a pintura] foi achada da sombra do home[m] Rodeada cõ hu[m] risco” (Holanda, 1563, [livro] 1, [capítulo] 3, fl. 8v) e que ele próprio começou a desenhar, ainda menino, traçando a sombra da sua mão numa parede (id., ibid.).
A sombra é por isso o começo do retrato e hoje está lá de forma imperceptível, mas, talvez se possa dizer assim, de modos indesejados. Ninguém deseja fotografar as suas sombras ou deixar que apareçam nas redes sociais. Somos seres desprovidos de sombra nas aparências. É sobre o retrato e a suas sombras, sobre os autorretratos e a sua relação com o mundo que nos vamos inicialmente debruçar neste percurso criativo, feito de uma parceria efectiva e afectiva com o meu outro lado, esse pintor e artista holandês Eddy Becquart. Os dois partimos juntos nesta aventura de interrogar o que dizem os nossos retratos pessoais, do mundo e dos outros que connosco irão partilhar esta criação.
JOÃO GARCIA MIGUEL