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Discurso de Abertura do FESTECA 2026 | Confiar: A Arte de Fiar em Conjunto

Boa tarde a todos e a todas.               Muito obrigado pela vossa presença. Vocês são o que há de mais importante numa peça de teatro e na vida. São o olhar atento, a presença, o riso e as palmas e quando as coisas correm menos bem o bocejo. Obrigado pela vossa

Boa tarde a todos e a todas.

 

            Muito obrigado pela vossa presença. Vocês são o que há de mais importante numa peça de teatro e na vida. São o olhar atento, a presença, o riso e as palmas e quando as coisas correm menos bem o bocejo. Obrigado pela vossa decisão de estar aqui mais uma vez.

 

            Quero começar com uma palavra simples. Uma palavra pequena, mas que carrega o peso de mundos e futuros inteiros. Uma palavra que nos trouxe até aqui, neste mês de julho, ao Cazenga, para mais uma edição do Festival Internacional de Teatro — o FESTECA.

 

            Essa palavra é CONFIAR.

 

            Vamos desconstruí-la, descascá-la, como fazemos quando criamos uma peça de teatro, para ver os seus alicerces.

 

            Confiar significa fiar com alguém, ou fiar junto com alguém. Mas a sua raiz profunda é a fé na vda. Precisamos de confiança para fiar com alguém. E aqui está a beleza escondida: fiar é o ato de torcer fibras, de entrelaçar fios, de construir um tecido. Quem fia, com as mãos, cria uma manta, uma corda, uma trança. Quem fia com outro, confia — tece uma relação, uma comunidade, um destino partilhado.

 

            No fundo, a palavra confiar não é um ato solitário. Não se confia sozinho, nem para si mesmo. Confiar é sempre uma relação. É acreditar que alguém segura a outra ponta da corda que estamos a tecer. É entregar parte do nosso fio a outro, confiantes de que juntos faremos uma tapeçaria mais forte, mais bela, mais resistente ao frio da vida.

 

            É isso que o FESTECA representa para mim, desde que aqui venho, já lá vão mais de quinze anos.

 

            Recordo-me, como se fosse ontem, de chegar a este bairro, a este espaço, e sentir imediatamente algo que me tocou. Profundamente. Um lugar âncora para jovens que precisam de crescer não só com confiança, mas também com segurança. Um lugar onde pudessem olhar para o futuro sem medo.

 

            E, ao longo destes anos, vi esse lugar crescer. E vi pessoas crescerem nele.

 

            Há alguns anos, uma menina participava nas atividades do FESTECA — timidamente, como muitas crianças que se aproximam pela primeira vez de um palco. Chamava-se Edna. Via-a a fazer de Rainha Njinga. Aqui, ela descobriu a importância dos laços sociais. Foi acarinhada pela arte, pelo teatro, pelas pessoas que a rodeavam. Aprendeu a confiar em si mesma, a confiar na vida.

 

            Hoje, a Edna é advogada. Não porque o teatro a tornou advogada. Mas porque o teatro, o FESTECA, a ensinou a confiar — em si, nos outros, num mundo que, apesar das dificuldades, a pode receber e acolher.

           

            A Edna é como uma flor que vimos crescer. E uma flor, sabemos bem, precisa de cuidados. Precisa de terra firme, de raízes, de um lugar onde possa crescer sem receio, ainda que com todo o cuidado que a vida exige. O FESTECA tem sido essa terra para que todos possamos florescer

 

            Mas a vida, sabemos, não é fácil.

 

            No mundo em que vivemos, ter um lugar onde nos possamos sentir seguros é essencial. Vivemos tempos incertos e difíceis que parecem não ter fundo nem fim.

 

            É por isso que confiar é urgente.

 

            Não se trata de uma confiança ingénua. Não é acreditar que tudo está bem, porque sabemos que não está. Trata-se, antes, de escolher a confiança como caminho. Uma escolha ativa, deliberada, quase teimosa. A confiança como resposta possível — não a única, não a final, mas uma que pode fazer a diferença.

 

            Porque confiar — ou seja, fiar em conjunto — é construir a manta que nos aquece contra o frio. É tecer a corda que nos ajuda a subir quando a vida nos puxa para baixo. É criar o colar que nos embeleza e lembra quem somos e o que podemos fazer juntos.

 

            E não há soluções únicas, nem finais. Há processos. Há caminhos a percorrer. Há tudo para aprender.

 

            E o FESTECA, com os seus 21 anos de existência, é isso mesmo: um processo contínuo de confiança.

 

            21 anos. Duas décadas e um ano. É tempo suficiente para vermos o fruto desse fiar coletivo.

 

            É confiar:

 

            Que há artistas que trabalham todo o ano, em silêncio, nos seus ensaios, nas suas criações, e que aqui vêm mostrar o seu labor diário.

 

            Confiar que há uma Angola que acredita na imaginação e na criatividade como forças transformadoras.

 

            Que há quem se organiza e oferece com amor — a Globo Dikulu, o Animarte e todos os que com eles colaboram — para que ano após ano possamos regressar para novos encontros e novas descobertas.

 

            Podemos confiar que o tempo joga a nosso favor, pois é com o tempo que fazemos o teatro, a nossa arte e fiamos as nossas vidas.

 

            Podemos confiar que a força vital que move as nossas vidas — tem aqui a sua terra, o seu lugar e as suas flores que nos tocam a alma e nos fazem abrir os olhos e estender as mãos para os abraços dos outros.

           

            O FESTECA, pelo 21º ano consecutivo, é o lugar que nos permite confiar que é importante continuar. Estarmos juntos. Sonhar que há vida e que aí vem. Está a chegar.

 

            E este ano, temos a honra de trazer uma peça que é ela própria um ato de confiança. A Companhia João Garcia Miguel apresentará no próximo sábado dia 4 de Julho: O Príncipe de Cazenga.

 

            Uma peça criada e realizada com o ator angolano, natural do Cazenga: Léo Joaquim Emílio, que tem estagiado em Portugal e que connosco criou uma história especial. Uma história sobre aqueles que partiram e sonharam partir — mas que, de facto, nunca foram. Estiveram sempre aqui.

 

            Como diz o ator, falando de si e do seu regresso: ele é o regresso daqueles que nunca foram.

 

            E o herói desta história chama-se Ndombele. Sabem o que significa Ndombele? Significa aquele que pede. Neste caso, é aquele que pediu para ir... e depois pediu para voltar. Aquele que pediu para confiar que a ida era, na verdade, um regresso a casa.

 

            É uma história sobre confiar que podemos partir, confiar que podemos voltar. Confiar que, mesmo quando partimos, carregamos o Cazenga connosco. Confiar que o regresso é uma escolha. Tal como Ulisses quando regressa a casa e dorme com Penélope e é como a sua primeira noite de núpcias. Voltam a encontrar-se como noivos. Aquela noite foi a mais longa do mundo. Eles conversaram, contaram um ao outro as suas aventuras. Tudo é agora como outrora, o tempo parece ter-se apagado.

 

            E este é o meu pedido.

 

            Peço que todos conjuguemos esta palavra: confiar. Eu confio. Tu confias. Nós confiamos. Que conversemos, compartilhemos e celebremos uns com os outros.

 

            Que, como um tear ou um teatro coletivo, possamos, em conjunto, fiar o mais belo colar que nos une aqui no Cazenga.

 

            Todos os meses de julho. Durante muitos anos ainda por chegar.

 

            Porque o futuro constrói-se — não com certezas absolutas, mas com atos de confiança. Que, embora haja medo, continuemos a acreditar e a fiar juntos.

 

            Por isso, o meu profundo agradecimento:

 

            Ao Animarte e à Globo Dikulu, que há 21 anos tecem este festival com amor e a consciência de que estão a criar uma terra onde sempre possa florescer a confiança.

 

            A todos os que tornaram possível este acontecimento — técnicos, produtores, voluntários, colaboradores e espectadores. Agradeço a todos os que nele confiam.

 

            Aos artistas por confiarem que é aqui que se podem entregar uns aos outros. Por confiarem que há um público, há um Cazenga, há uma Angola que os espera e que precisa da sua arte.

 

            E a todos vocês, que aqui estão, que escolheram estar, que confiaram que este seria um bom lugar para estar neste primeiro dia de julho.

 

            Para terminar: confiar é um ato de amor.

 

            É acreditar que, mesmo quando não vemos o resultado final, o processo vale a pena. É acreditar que os fios que tecemos hoje serão a manta que aquecerá alguém amanhã. É acreditar que, como a Edna, como o Léo, como cada jovem que passa por este festival, há uma flor a crescer — e que o nosso papel é cuidá-la com confiança.

 

            O FESTECA é isso. É um lugar onde a confiança se faz arte e a arte se faz confiança.

 

            Bom festival para todos.

 

            Que este seja mais um capítulo na bela história que temos escrito juntos. Que seja mais uma demonstração de que, mesmo num mundo incerto, há quem escolha confiar.

 

            E confiar, meus amigos, é o primeiro passo para construir o mundo que queremos.

 

            Muito obrigado. Bom festival para todos.

 

 

            Cazenga, 1 de julho de 2026

 

            João Garcia Miguel