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AS BARCAS

Levámos os textos de Gil Vicente (A Barca do Inferno, A Barca do Purgatório e A Barca do Céu), tem a base da criação que para nós é como uma viagem. Os textos e ideias do autor e fundador do Teatro Português, Gil Vicente, alimentaram a nossa criação, e foram

Levámos os textos de Gil Vicente (A Barca do Inferno, A Barca do Purgatório e A Barca do Céu), tem a base da criação que para nós é como uma viagem.

Os textos e ideias do autor e fundador do Teatro Português, Gil Vicente, alimentaram a nossa criação, e foram transformados numa peça onde as palavras são gravadas nos corpos, envolvendo-os no tempo e espaço que habitam.

A abordagem do mundo medieval, na base do teatro europeu e português, enquadra-se no contexto do trabalho da Companhia sobre textos clássicos. É um investimento na investigação de um tema tão fértil, pela redescoberta que proporciona, de diferentes perspectivas mundiais. Nessas viagens ao passado comum, encontramos o conceito medieval de virar “o mundo de cabeça para baixo” para revelar os seus detalhes, segredos e subtilezas. Este conceito, pelo seu funcionamento, tornou-se uma das dramaturgas subtis da peça. Dramaturgia para a criação dos mistérios contemporâneos.

Para As Barcas desenvolvemos um sistema de trabalho que se desdobra em duas direcções, que tentamos coexistir: a performance e as tecnologias interactivas em tempo real. Voltamos ao tema das viagens. Viagem a um corpo impossível, desconhecido, a um corpo perdido num labirinto vazio de sentidos, condenado, corpo intemporal impossível, virado para o exterior, corpo que se move num espaço para além da vida, num espaço que pertence à morte. No texto procuramos o corpo, o esqueleto, o músculo. Procuramos a sensibilidade debaixo da linguagem, dentro dos segredos e da opacidade dos sentidos, das palavras, como olhares sobre o mundo. Este conjunto de textos faz com que a morte fale de si própria, da sua vida e da forma como a vivem. Estes textos funcionam como espelhos invertidos do mundo, de um tempo. São os textos de um mundo impossível.

Direção João Garcia Miguel
Intérpretes Constanza Givone, David Pereira Bastos, Felix Lozano, Sara Ribeiro