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O AMOR É FODIDO

CRIAÇÃO & DIREÇÃO ▼ Texto Miguel Esteves Cardoso Adaptação, Encenação e Espaço Cénico João Garcia Miguel Criação João Garcia Miguel Assist. de Direção Paulo Oliveira EQUIPA ARTÍSTICA ▼ Interpretação João Garcia Miguel Coreografia & Direção Técnica Gonçalo Lobato EQUIPA TÉCNICA ▼ Equipa Técnica Clemence Peytoreau Figurinos Rute Osório de Castro Costureira Teresa Matos

Texto Miguel Esteves Cardoso
Adaptação, Encenação e Espaço Cénico João Garcia Miguel
Criação João Garcia Miguel
Assist. de Direção Paulo Oliveira
Interpretação João Garcia Miguel
Coreografia & Direção Técnica Gonçalo Lobato
Equipa Técnica Clemence Peytoreau
Figurinos Rute Osório de Castro
Costureira Teresa Matos
Fotografia Mário Rainha Campos
Registo Vídeo Bruno Canas
Direção Executiva Suzana Durão
Gestão Financeira Rui Pedro Silva
Estrutura financiada por Ministério da Cultura – DGARTES
Apoio à internacionalização Consulado Português de São Paulo
Parceiros estratégicos Museu Nacional do Teatro e da Dança, Teatro Aveirense, Teatro José Lúcio da Silva, Câmaras Municipais de Aveiro e Torres Novas
Parceiros da comunicação Antena 2, Gerador, ON FM
Associado Performarte

O que propomos é uma obra que trate do amor com todas as peças — uma espécie de Romeu e Julieta contemporâneo em que os amantes se enganam reciprocamente suicidando-se para o amor, continuando apesar de tudo: vivos. Há uma resistência, uma vontade de se começar o que ainda não se começou. O amor dá muito trabalho e perdura até ao dia da nossa morte.
Há uma vontade de rir e de nos divertirmos com a vida. Com tudo o que dói e tudo o que nos alegra. Preparem-se as ferramentas.
Digam-se coisas. Fale-se incessantemente do amor. Quando chegar o momento, deixaremos de ser homens e mulheres. Seremos apenas seres fodidos. Reconheceremos o nada e tudo o que somos. Desesperados por recomeçar.
Forçamos a inteligência com as habilidades do amor até que o amor se foda. A inteligência começará então a desaparecer. Mas voltaremos a insistir, afinal somos amorosos e humanos. Há momentos em que parece que quase vemos.
Depois continuamos cegos.
As obras literárias por um estranho fascínio que as recobrem tornam-se mitos, perduram no tempo e vão-nos falando. Em direto e em diferido. Falam com aqueles que as leem e com os outros que nada sabem delas porque apenas ouviram dizer. As obras mais atraentes e enganadoras são aquelas que se apresentam como testemunhos íntegros e insuspeitos que lhes dão um valor de certeza definitiva. Os autores, os sofredores dos factos, limitam-se a descrevê-los tal como nós os teríamos vivido. Parece que somos atirados de corpo e mente para dentro daquilo que foi feito e que agora nos é narrado. Levam-nos a acreditar que estamos ali. Somos o actor e afinal estamos vivos. Há uma completa identificação. É o caso da obra: O Amor É Fodido do Miguel Esteves Cardoso. É um livro de uma época e de um estranho personagem que por lá sobreviveu. Todos lá estivemos e por lá vivemos: no amor e no que no amor nos fode.
Qual é, então, a vantagem, de o contar de novo? Ou de o vestir de novo? O autor diz-nos que há algo de sinistro numa mulher que só usa roupa uma vez. Como haverá, dizemos nós, algo de identicamente sinistro em vestir sempre a mesma roupa. É igual com o amor. Há algo de pecaminoso em vestir-nos de amor uma vez e de novamente repetir a dose. Ao entrar para dentro
do círculo amoroso fica-se marcado para a vida.
Quem lhe experimenta o sabor percebe que a coisa vai correr bem e surpreende-se depois: mas afinal a coisa pode correr assim tão mal? Quando o abismo chega pergunta-se: porque é que nos fodemos com o amor? Porque não resistimos. É do mal que nos faz. E já agora do bem que nos deu. Parece estar mesmo a pedir.
E o que é que nos pede o amor? Pede que algo em nós se mostre: o mostrengo que se esconde e habita nas profundezas. Pede ao monstro que saia. O amor pede que essa parte de cada um de nós se mostre e em simultâneo se esconda.
É por isso que o amor é fodido. Tudo o que não resistimos de mostrar através do amor tem logo de seguida necessidade de se esconder. As testemunhas, os documentos, os gestos, os traços, as cicatrizes, as lágrimas e os sorrisos obscurecem o amor, pois tudo o que fazemos são estratégias para o disfarçar e foder.
Encolhemos o rabo para esconder tesão. Quem nunca? Ou interrompemos a coisa e fazemos uma pausa para falar da lista das compras.
Vamos ficando cegos. E continuamos.
João Garcia Miguel